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Queria ser médica-pediatra, mas quis o destino que acabasse por ingressar na carreira de piloto. Filha de pais cabo-verdianos, Denise Semedo nasceu na Guiné-Bissau. Com nove anos de idade foi para os Estados Unidos da América, morar com os pais, onde passou o resto da infância e toda a sua adolescência.
Hoje, é uma das duas “mulheres de armas” da Transportadora Aérea nacional – TACV –, que desafiam uma profissão ainda “traçada” para ser comandada por homens em Cabo Verde. No âmbito do Dia Internacional da Mulher - que se assinala este domingo, 8 de Março -, A NAÇÃO conta-lhe - na primeira pessoa -, os receios, os desafios e as alegrias de quem ousou um dia desafiar uma sociedade, na altura, mais machista do que agora. Nada na infância dizia que Denise viria a ser piloto de aviões. Foi através do tio, o comandante Semedo, que a piloto da TACV percebeu que queria abraçar esta profissão para a vida toda. “Eu andava no liceu, era o último ano, e estava decidida a estudar pediatria, mas um dia vi o meu tio vir com aquela mala de voo, fardado e disse: é aquilo que eu quero ser”, contou Denise. E foi assim até hoje. De personalidade decidida e determinada nos objectivos a conquistar, esta comandante lançou-se na carreira da aeronáutica ainda muito jovem. Concluiu os estudos no Bridgewater State College, onde fez um curso de pilotagem e na Embry-Riddle Aeronáutica University e, hoje, ao lado de Filomena Carvalho formam a equipa feminina de pilotos na TACV, nos comandos do ATR. Denise Semedo tinha 23 anos quando entrou para a TACV. Um salto grande para uma menina que vinha dos Estados Unidos da América. As barreiras a ultrapassar foram muitas, mas a língua parecia ser o maior entrave da jovem aspirante a piloto.A comandante explica que a “adaptação no início foi difícil” porque “em casa, com a minha mãe, falava crioulo e quando cheguei cá a língua oficial do cockpit era o Português e eu não sabia falar. Mas depois com o tempo adaptei-me”. Denise Semedo foi a primeira mulher comandante em Cabo Verde, quando em 2002 assumia os destinos do avião Dúnia, da Guarda Costeira de Cabo Verde. Uma época que recorda com saudade e da qual guarda memórias que jamais esquecerá. “Foi uma experiência muito boa, aprendi bastante”, relembra a comandante com um brilho no olhar. Sociedade ainda é machista Ser mulher numa profissão que a sociedade cabo-verdiana ainda vê como sendo talhada para homens, não tem sido fácil para Denise. A comandante sublinhou que “no início achava que era bom ser uma mulher numa profissão dita de homens mas, com o passar dos anos e a minha experiência profissional, percebi que, infelizmente, os homens cabo-verdianos ainda são muito machistas”.
Um preconceito que admite estar a diminuir na sociedade mas refere que a “maioria dos homens não acredita do que as mulheres são capazes”. Denise Semedo solta em jeito de desabafo que esta, até é uma opinião partilhada pela outra comandante nacional, Filomena Carvalho e afirma que “posso falar pelas duas, nós somos comandantes há já algum tempo mas não nos dão a total confiança. Há alguns que acreditam em nós e há outros que ainda nos vêem da mesma forma como quando entrámos para a companhia. Esta é a realidade cabo-verdiana, a realidade africana”, concluiu Denise. Esta é uma atitude que Denise sente muitas vezes em relação a alguns passageiros, também. Pelo menos, antes do voo. É que, como contou a Comandante, no início da viagem, alguns passageiros “têm uma certa desconfiança quando vêem uma mulher a pilotar um avião, principalmente, se for a primeira vez que vão voar. Mas depois no final acabam por gostar e dizem que foi bom viajar comigo porque as aterragens são mais suaves, mais sensíveis”, mas, “eu acho que somos todos iguais”, referiu Denise. Sonho de pilotar um Jacto Longe do céu, que afirma também ser a sua casa e com os pés bem assentes na terra, esta comandante mãe de dois filhos, garante que não é fácil conciliar a profissão com o papel de mãe. Uma tarefa que vai equilibrando da melhor forma que pode mas sempre com o objectivo de concretizar o seu maior sonho na carreira da aviação, “pilotar um Jacto”. Mulher moderna e dinâmica, que leva a carreira profissional muito a sério, Denise Semedo, apenas quer evoluir na aviação. É com alguma desmotivação e ao mesmo tempo esperança no olhar que desabafa que “cada vez que estou no ar e “ouço” no espaço aéreo, uma mulher a pilotar um jacto, pergunto-me porque é que eu estou aqui? Talvez ainda não tenha chegado a minha hora”. Mas a comandante não baixou os braços e garante que está à espera de uma oportunidade para voar mais alto. É que ao longo da vida tem sacrificado a família em nome do destino que escolheu. “Na nossa profissão é preciso ter muita coragem porque, quando saímos de casa, eu digo sempre aos meus filhos que vou, mas posso não voltar. Essa é a realidade. Apesar de ser um meio mais seguro do que o terrestre, nunca se sabe. E eu digo sempre a eles, tratem-me bem que amanhã posso não estar cá”, concluiu Denise Semedo, a primeira mulher comandante a cruzar os céus de Cabo Verde. “Nós somos comandantes há já algum tempo, mas não nos dão a total confiança. Há alguns que acreditam em nós e há outros que ainda nos vêem da mesma forma como quando entrámos para a Companhia. Esta é a realidade cabo-verdiana, a realidade africana” Gisela Coelho |