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Quando se morre por negligência dos outros Neste presente artigo proponho-me, mais uma vez, dissecar sobre um assunto que julgo pertinente e está relacionado com Achada de São Filipe, meu berço. O perigo nas estradas de São Filipe é o título que melhor se ajustaria a este artigo.
Devo confessar que sobre este tema já havia escrito e, por conseguinte, o leitor pode estar a perguntar por que razão insisto em bater na mesma tecla. A resposta é fácil: ainda não se vislumbra qualquer solução para as preocupações que tenho trazido à luz do dia. As pessoas continuam a morrer nas estradas de Achada de São Filipe, apesar de aquela via rodoviária se encontrar totalmente asfaltada e ser uma das melhores do país. O que está a matar é imprudência dos condutores. Os acidentes ali registados foram todos por incúria e imbecilidade de alguns desses homens do volante que têm transformado aquela estrada num autêntico autódromo, com velocidades, em alguns casos, superior a 100 quilómetros/ hora. O último acidente mortal teve lugar no passado domingo, 17. A vítima é uma senhora que responde pelo nome de Jacinta Varela, conhecida por Mena, residia na Várzea da Companhia. Encontrou à morte frente ao restaurante onde ganhava o pão para o sustento dos seus filhos. A Polícia já confirmou que o condutor vinha em excesso de velocidade. Aliás, o acidente deu-se na presença de vários agentes da autoridade que, na altura, se encontravam no local. Infelizmente, todos os dias assistimos a condutores que carregam no pedal, como se estivessem a participar numa Fórmula Um, esquecendo-se de que estão numa localidade e, portanto, a velocidade não deve exceder os 50 quilómetros/ hora. A estrada de São Filipe não só é atravessada por pessoas, como também por animais, já que a comunidade local é constituída por um grande número de gentes que desde tempos remotos sempre viveu da criação do gado. Depois de asfaltada, aquela via rodoviária tornou-se mais propícia à leviandade dos condutores que não têm respeitado os sinais de limite de velocidade ali colocados. É o caso do que aconteceu na noite de domingo. Se o jeep que “assassinou” a senhora Jacinta estivesse a circular dentro dos limites impostos pelas regras de trânsito, certamente, hoje, aquela mãe não estaria a ser chorada pelos seus filhos, familiares e amigos. Cria-nos uma revolta interna sempre que presenciamos alguém a deixar este mundo por causa da incúria dos outros. Pergunta-se àqueles que fazem as leis ou que as aprovam para quando teremos uma legislação mais adequada à realidade cabo-verdiana. As mortes por indiferença à vida humana nas estradas são uma constante em Cabo Verde. Quando tiverem a sorte de não morrer, as vítimas ficam incapacitadas para sempre. Se formos ver os dados estatísticos, são milhares de contos que o Estado gasta anualmente no tratamento e recuperação de pessoas que sofreram acidentes, porque o condutor circulava em velocidade excessiva ou porque tinha álcool a mais no sangue. Infelizmente, esta é a triste realidade nossa. Este dinheiro podia ser empregue em outras coisas, nomeadamente na construção de mais escolas e de casas para aqueles que não têm um tecto. Por falar do álcool (este mal que vem dando cabo dos cabo-verdianos), na noite do fatídico acidente em Achada de São Filipe, por pouco um condutor não pisava o cadáver ali estendido no asfalto pelos agentes de serviço - para evitar que os curiosos o tocassem antes da chegada do Delegado de Saúde e dos agentes da Polícia Judiciária: depois de ele conseguir imobilizar o carro, foi abordado pelos agentes da Polícia. Mal conseguia pôr-se de pé. Não estou habilitado para o acusar de estar alcoolizado. Mas parecia-me um alambique. Perante o seu comportamento foi detido. Os agentes, certamente, não o mantiveram na esquadra por mais de 48 horas para, depois, o libertar. Cabo Verde tem lei que proíbe as pessoas de conduzirem sob o efeito do álcool. No entanto, não vale a pena o polícia apresentar aquele cidadão ao tribunal. É uma perda de tempo. Já se sabe que o juiz mandá-lo-á em paz e os agentes policiais terão que ter sorte para não serem transformados em réus. No momento em que escrevia este artigo veio-me à memória a trágica noite de 20 de Setembro de 2006, no concelho do Tarrafal de Santiago. Um camião, circulando em alta velocidade, fora de mão, subiu por cima de uma carrinha ligeira. Este aparatoso acidente ceifou a vida a nove pessoas, tendo deixado um em estado grave. António Filomeno Robalo, Edna Maria Ramos Andrade, Tiago Júnior Freire, Sara Lúcia, Adriana Borges Fernandes, Adelina Mendes Furtado, Jailson Cristiano Tavares, Reiny Fernandes Mendes e Maria Dias Furtado são as vítimas mortais. Entre os mortos encontravam-se crianças e jovens. Jovens que tinham concluído o ensino secundário e se preparavam para continuar os seus estudos, a nível universitário, dentro e fora do país. Todavia, por força de incúria de alguém, estas pessoas viram os seus sonhos morrer na estrada de Chão Bom. O rapaz não estava habilitado a conduzir nenhum tipo de veículos, porque não possuía carta de condução. Levado ao tribunal, o senhor juiz julgou-o e decidiu aplicar-lhe uma pena de quatro anos de prisão. É a nossa justiça: muitas vezes lenta, morosa e, em algumas circunstâncias, injusta. Os familiares das vítimas não se conformam. Estão indignados. Alguns ainda não acreditam que o condutor que provocou o brutal acidente só apanhou quatro anos de cadeia. Não conseguem conter lágrimas, quando se lhes fala dos seus entes queridos mortos na trágica noite do dia 20 de Setembro. Muitos ficaram traumatizados. É o caso da mãe de uma das jovens falecidas no acidente. Desde a perda da filha, deixou de ser a mesma pessoa. Hoje, ela sofre de depressão (Ver mais na página 25). |