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No passado 31 de Julho - uma quinta-feira -, faleceu, no Hospital “Dr. Agostinho Neto” (na Praia), Cecília Fernandes Tavares, vítima de acidente de viação, ocorrida na descida de “Cruz di Pico”. A vítima, que se encontrava de férias no país, deslocava-se à capital para passar uns dias com os irmãos que vivem na Praia.
A viver em França há mais de 10 anos, a saudade da terra é grande, e ninguém quer perder um dia sequer do pouco que lhe é concedido para visitar os seus, passar umas horas de convívio familiar, e lembrar os velhos tempos em que todos viviam juntos, sob o mesmo tecto, sem pensar em separações, ou coisas do género. O carro capotou numa curva, tombou ladeira abaixo, e foi parar lá ao fundo na ribeira. Antes dela outros morreram em acidentes no mesmo local. Com este caso já somam quatro as viaturas que capotaram já nessa curva. Na viatura, para além da Cecília, estavam os seus dois filhos – um de dois anos e meio e outro de cinco, o condutor e mais um ocupante. Os acidentes acontecem, e, porque são acidentes, nem sempre se consegue evitá-los. Mas existem acidentes que suscitam algumas questões, e que requerem alguma atenção. O acidente de 31 de Julho é um deles. Para já, e por este lado, o troço da estrada que desce de “Cruz di Pico” até à ponte de “Chã Drigues” exige um estudo mais aprofundado, visando a correcção do traçado, ou mesmo a eliminação de algumas curvas. Não parece ser um trabalho de grande monta, um trabalho que envolve grandes somas, e, mesmo que assim fosse, é um trabalho que deverá ser feita para poupar vidas humanas. Não é raro ouvir-se comentários de condutores e mesmo de passageiros a dizer que esse troço de estrada é perigoso e imprevisível. Já conheceu obras de beneficências, mas, tudo aponta que aqui o problema só se resolve com um novo traçado. Até quando vai continuar como está, é a pergunta que fica…Por outro lado, o acidente ocorreu-se por volta das 15H30. Imediatamente, as vítimas eram socorridas por populares. Presentes no (novel e badalado) Hospital Regional de Santiago Norte, em Santa Catarina - mais concretamente, em Achada Falcão, terra de Amílcar Cabral, o Pai das independências de Cabo Verde e da Guiné-Bissau -, cedo este entendia não haver condições locais para atender as vítimas. A solução era encaminhá-las para o Hospital “Dr. Agostinho Neto”. No entanto, a única ambulância que opera nessa unidade hospitalar encontrava-se ocupada numa outra missão. Quase duas horas depois, as vítimas eram transportadas para a capital. No caminho – quando desciam para São Lourenço dos Órgãos – secava o soro que vinha aguentando Cecília. Aqui, a ambulância teve que voltar atrás para abastecer com soro no Centro de Saúde de Picos – no concelho de São Salvador do Mundo. Assim, só quando eram, sensivelmente, 19H40 é que as vítimas entravam no Hospital da Praia. E, por volta das 20H20, falecia Cecília Fernandes Tavares, não conseguindo aguentar aos ferimentos e ao atraso no atendimento. Com apenas 36 anos de idade, para atrás deixa os dois filhos menores, o marido, uma vida de viagens e desencontros - que a terão arrancado das ilhas e levado para Angola e França -, e um rio de lágrimas que não vai secar tão cedo. Sexta-feira passada, 8, os meninos, acompanhados do pai, regressaram para França. Vão continuar o percurso da mãe, barbaramente interrompida por um acidente ígnaro e inoportuno. Nunca vão entender o que levou a mãe a ficar em Cabo Verde. Sobretudo, o mais velho – aquele que tem 5 anos. Sempre vai lembrar que a mãe foi para o Hospital e que, a partir dali, nunca mais a viu. Mas como entender isso (?...) fica difícil. Muito difícil. Assim como fica difícil entender como pode um Hospital Regional não dispor de condições para tratar os doentes da Região. Como pode um Hospital Regional permanecer com apenas uma ambulância, ainda por cimam, com mais de dez anos de estrada. Como podem os técnicos de Saúde não prever a quantidade de soro necessária para aguentar a vítima até à cidade da Praia. Mas, mais do que isso, fica difícil entender como poderá uma Região tão importante – Região Norte de Santiago - contentar com estradas que são autênticas ratoeiras, autênticas estradas da morte, porque mal projectadas e mal executadas. Os filhos da Cecília merecem esta explicação. Nós, também, merecemos esta explicação. |