Ninguém segura Ulisses

A vitória de Ulisses Correia e Silva na Praia, por 62 por cento dos votos, nas eleições de autárquicas, deixa o edil praiense com a via aberta para suceder Carlos Veiga. Aliás, no próprio MpD, tudo vem sendo feito nesse sentido, ao que tudo indica, com a anuência do próprio líder dos ventoinhas. Também no PAICV o drama da sucessão de José Maria Neves já começa a angustiar os tambarinas.

No MpD, por enquanto, "ainda é cedo" para falar abertamente na escolha do próximo líder do partido, já que por ora importa saborear a "vitória ainda quente" de domingo passado e só depois discutir o futuro do partido. "Esta é uma vitória com sabor muito especial, o assunto que me coloca será tratado depois, na devida altura", disse um alto dirigente.

De todo o modo, a desoras ou não, o projecto de Ulisses Correia e Silva vir a assumir a liderança do partido é algo que já paira na cabeça de todos. "O Ulisses neste momento é consensual", admitiu uma fonte.

Nem mesmo José Maria Neves, a braços também ele com alguém que o suceda no PAICV, ignorou tal facto na hora de comentar o desastre eleitoral. Prevendo o que se vai passar no MpD nos próximos tempos, com a saída de Veiga, "vão fazer a próxima Convenção e vão designar o actual presidente da Câmara Municipal da Praia como líder do MpD", disse.

E neste correr da água por debaixo da ponte, JMN lá foi lembrando também que não é candidato, "pelo menos, às próximas eleições legislativas", reiterando com isso o seu anúncio, no ano passado, logo após às eleições legislativas, quando obteve o seu terceiro mandato, de que este seria o seu último mandato enquanto primeiro-ministro.

Uma coisa é certa, a vitória faz de Ulisses Correia e Silva um elemento incontornável da actual cena política nacional, tal como o preconizado na semana passada pelo A NAÇÃO. "Tido como autarca modelo pelos seus pares, Ulisses Correia e Silva há muito que acalenta o sonho de liderar o MpD. Chegou a tentar antes das legislativas de 2006, numa luta a três com Jorge Santos e Agostinho", escrevemos. A mesma hipótese foi retomada e referida pelos vários analistas durante os comentários produzidos no domingo, 1, à noite.

Tendo vencido a parada, a ideia que se tem neste momento é que ninguém segura Ulisses Correia e Silva, com tudo a indicar que o próprio líder do MpD faz parte dessa estratégia. Aliás, conforme nos havia dito também na edição anterior, quaisquer que fossem os resultados, o seu futuro estava decidido. Porém, com a vitória arrebatadora de domingo, 1, no entender de alguns dos seus pares, Veiga poderá cair na tentação de reavaliar o seu futuro. "A política é uma coisa dinâmica, o que se disse na semana passada pode não valer hoje", argumenta um dos nossos interlocutores.

Independentemente disso, e a valer o cenário que o próprio Veiga ajudou a formar a nível da Comissão Política Nacional do MpD, existe um quadro de consenso em favor de Ulisses Silva. De acordo com o apurado pelo A NAÇÃO, a própria estratégia eleitoral do autarca praiense foi traçada a pensar num quadro de substituição de Veiga. "O MpD, e nisso o próprio Carlos Veiga, durante a campanha foi transmitindo a ideia de Ulisses como autarca modelo, sério, competente e transparente", confidenciou um dos nossos interlocutores. Um dos que fez a campanha tendo Ulisses como modelo foi Orlando Dias, em Santa Cruz, neste caso sem sucesso.

Sendo Ulisses consensual neste momento, segundo um aliado seu, "o grande problema que ainda se lhe coloca são os equilíbrios internos". E, mais vez, é aqui que Carlos Veiga se mostra imprescindível, para não dizer insubstituível. "Carlos Veiga é ainda o homem forte do MpD. Ele continua a ser a grande referência do partido nas ribeiras de Santo Antão, São Nicolau, no interior de Santiago e outros lugares de Cabo Verde, daí a importância dele para o MpD".

De todo o modo, na linha do apurado por este jornal, Carlos Veiga está de saída, sendo sua vontade deixar a liderança do MpD no próximo ano, em Março, durante a convenção, embora haja quem defenda que ele deve permanecer no lugar até 2015. "Inicialmente ele queria deixar a liderança agora em Novembro, mas conseguimos convencê-lo a aguentar até Março do próximo ano. Um outro desejo nosso é ele aguentar o partido até 2015, dando com isso mais algum tempo de afirmação e consolidação ao Ulisses Correia e Silva".

O certo, e na linha do também avançado por Carlos Veiga na edição anterior deste jornal, o MpD conta realizar por altura da abertura do próximo ano político, em Outubro ou Novembro, o tal debate sobre o seu futuro, com a discussão também de alguns aspectos do seu programa, tendo desta feita a regionalização como um dos seus pontos fortes.

Será nessa altura que algumas ideias e projectos poderão vir ao de cima, agora que o MpD começa a despontar de novo como a grande força política em 2016. "Tendo em conta o excelente resultado eleitoral, tendo em conta o peso da Praia no contexto nacional de Cabo Verde, o Ulisses é naturalmente uma forte hipótese sobre a mesa, sendo porém certo que neste momento, pelo menos, não existe nada em concreto em relação ao Veiga", ressalvou uma fonte.

 

 

 


 

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