K tal, fazer do Platô a Cidade Universitária da Praia

O Platô é um lugar caro!

Dele, todos temos uma história pra recordar: um simples passeio na praça…, um beijo no cruzeiro, ou o peixe seco e mel do mercado, por altura das cinzas… Mas o que mais me encanta, é a sua magica virtude de ser urbano, um mestiço provincianismo e cosmopolitismo em tão pouco pedaço de chão e ainda assim continuar com suas casas imitando os meus desenhos dos tempos de lápis de cor.

O  Plano de Salvaguarda do Platô

Vai pra vinte anos a idade do plano que pretendia a “Salvaguarda do Platô” e até esta, nada! Todos ensaios redundaram em falhanço. O Platô degradou e descaracterizou-se nas tentativas de reabilita-lo, explorando sua centralidade.

Deve contar-se numa mão as experiências felizes de reabilitação urbana e arquitectónica que aconteceram no Platô. Por isso, enumerá-las é sempre de justiça: casa museu etnográfico; casa cor-de-rosa; quarteirão do 5tal da música; recentemente a casa onde se instalará a Câmara de Comercio das Canárias; a casa do tribunal de menores; o palácio da cultura e por fim a rua pedonal. Raros mas belos exemplos…

O risco da perda do património

Deduz-se pois, que há um risco sério de perdermos as referências que emolduram as nossas memórias e fazem de “riba Praia” uma parte especial das nossas vidas. Diagnostica-se que esse movimento acelerado de morte lenta, se deverá a dois factores próprios das cidades em crescimento, (i) o abandono dos moradores e (ii) a sua apetecível centralidade comercial. O primeiro acaba com a vitalidade da cidade, o segundo atrai a especulação imobiliária que não quer saber de referências nem de passado, mas do futuro dos cifrões. Enfim, poderia deter-me em mil-e-uma análises socioeconómicas para compreender e justificar este fenómeno, mas não é o que me interessa. Interessa-me dizer porque o Platô deve ser preservado e propor uma ideia para a sua reabilitação sustentável.

Está visto que nem o poder público, nem os privados de hoje têm “capacidade” para a reabilitação do Platô, e por isso o “tchapa-tchapa” vai perdurar até acabar, em definitivo, com essa interessante experiência urbanística que a natureza, a história nos brindaram, mas também homens como o governador Chapuzet, Abilio Macedo e tantos outros anónimos que com muitíssimo menos que hoje nos souberam deixar um legado de tirar o chapéu.

O que têm o Platô de interessante?

Mas o que tem de interessante, o Platô, para que se reclame sua preservação? Primeiro sua localização alcandroada, sobre prismas de basalto vivo sobranceira à baia, configura um quadro estético unico e extraordinário. Depois a sua malha urbana rigorosa e ortogonal, fisicamente interrompida por miradouros naturais que prolongam o olhar pelo contraste da paisagem sinuosa. E de seguida vem a estrutura viária, composta de ruas alongadas e largas, outras estreitas, umas até becos, como em muitos lugares, mas aqui da forma como se justapõem no percurso, conferem ordem, referencial, deixando sentir uma ideia clara de hierarquia da cidade, o que dá conforto e segurança e tudo junto empatia.

Indo mais ao detalhe descobrem-se os edifícios que bordeam as ruas. Nas estreitas, casas simples, quase mínimas, nas ruas maiores, alguns sobrados. Os palácios erguidos, na escala própria, emolduram exclusivamente as praças. Estas são tão intimistas estabelecendo entre si uma relação axial, o que lhes prolonga a familiaridade, mesmo quando o eixo de articulação remata no mar. Isto é, no miradouro Digo Gomes, oferecendo como espectáculo o ilhéu e  a magia do pôr-do-sol, do final das tardes.

Mas sobre os edifícios destaca-se a simplicidade, quer na forma como na volumetria, afinal são na sua maioria de piso térreo apenas, emoldurados por fachadas de janela-porta-janela e rematados em beirado simples. Mas quando alinhados têm muita graça, pois conformam escala e proporções adaptadas às ruas pequenas e estreitas que as albergam. Não interferem com as ordens naturais ou com a harmonia. Este equilíbrio empresta romantismo, docilidade e empatia com o Platô. Não há exuberância de escala, de jogo volumétrico, de telhados ou de adornos das sacada e portais, tão pouco na nobreza dos materiais, mas a simplicidade dos quarteirões longilineos, o ritmo das fenestração, das pilastras demarcando onde acaba um edifício e outro começa, a sequência rítmica das ruas que seccionam os grandes quarteirões, configuram conjuntos urbanos equilibrados, propiciando ao usuário do espaço uma experiência emocional de tranquilidade, paz e sossego: afinal aquilo que buscamos na vida, todos os dias.

A escala humana e humanizada, destressada faz do Platô um lugar especial, apelativo e prenhe ao acontecimento, que marca naturalmente a memória e vincula o indivíduo com o lugar. O Platô será, por isso, no contexto da história um espaço de memória de todos  que o experimentaram, um lugar de vivencias particulares, um lugar especial. E no contexto do urbanismo luso-ibero um fenómeno urbano único que interessa preservar, como uma experiência bem conseguida de adaptação de um modelo colonial a uma realidade tropical que continua a ser referencial desejável para habitar.

Dito isto, a questão que se põe é: como o urbanismo e a experiência urbana que o Platô proporciona, mesmo nos dias de hoje, pode ser preservada e legada ao futuro, de forma que não seja uma ideia nostálgica e apanágio das gerações que estão se extinguindo junto com esse importante património?

Platô: a Cidade Universitária Património da Humanidade

Creio que o Platô precisa de uma ideia forte. Uma ideia que resgate as vontades que podem sustentar sua reabilitação e manutenção. Para mim essa ideia assenta em algumas ancoras:

 

  • A primeira consiste em “transformar o Platô na cidade universitária da Praia”. Instalando, nas suas velhas casas reabilitadas e adaptadas, as escolas e departamentos, os laboratórios, os refeitórios, as bibliotecas, os auditórios, mas também as residências e os lugares de convívio juvenil. Punha-se assim um stop nos apetites comerciais que põem em causa qualquer projecto de reabilitação. E resgatar-se-ia, com juventude, a vitalidade humana que o Platô perdeu com o despovoamento.
  • A segunda seria criar um verdadeiro projecto salvaguarda que passaria pela “reabilitação das estruturas físicas e lugares de memória e pela total pedonalização do Platô” (salvo algumas restrições).
  • A terceira consistiria em “conseguir a classificação do Platô como património da humanidade” e por essa via procurar os recursos para sua reabilitação e sustentabilidade.

 

É claro que tudo isto requer uma engenharia financeira e negocial muito grande, mas preservar a memória e dispor de um sítio classificado com as características do Platô, onde se promoveriam acontecimentos académicos (congressos, experimentais, aulas, etc), culturais (teatro, musica, dança, etc) em plena rua, constituiria mais-valias de atracão turística que sustentaria um tal projecto de salvaguarda. Naturalmente que muitos outros detalhes comporiam um tal projecto, mas creio que estas pincelas podem constituir já linhas de força para a compreensão de uma ideia, quiçá uma sugestão para a cidadania e a coragem politica de resgatar a memória e construir o futuro resgatando o património.

João  Vieira


 

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