Cinema, uma diversão em vias de extinção

Na era do computador e da internet, em que tudo se grava e se reproduz em termos de imagens e sons, o cinema em Cabo Verde perdeu a corrida para os novos meios de entretenimento. Nos dias que correm, apenas as salas do Platô (Praia) e Assomada (Santa Catarina) funcionam com alguma regularidade. As demais foram todas riscadas do mapa.

As salas do cinema em Cabo Verde começaram a fechar as portas, uma a uma, nos finais do século passado. A televisão, e depois os videoclubes, e mais recentemente a internet tiraram os clientes à chamada sétima arte. Em São Vicente, primeiro, foi o Miramar a fechar as portas e depois o Eden-Park. Na cidade da Praia, onde havia duas salas municipais, o Cinema do Bairro Craveiro Lopes foi o primeiro a encerrar. Com dificuldade, o velho Cine-Teatro da Praia, sempre que pode, vai projectando filmes, numa luta contra o tempo. À sua frente desde 2008 encontra-se José Luís Lima, um amante do cinema, que divide esse emprego com um outro que tem na Assembleia Nacional.

“Quando assumi a gestão do Cinema do Platô as coisas mostraram-se difíceis porque havia muita pirataria. Outro problema era a perda do hábito das pessoas de irem ao cinema. As portas das salas estiveram demasiado tempo fechadas e isso contribuiu para, pouco a pouco, as pessoas perderem o hábito do cinema, como havia antigamente”, explica.

REABERTURA DIFÍCIL

Para recuperar o público perdido, o desafio passou por procurar “bons filmes”, ao mesmo tempo que se cuidou da situação financeira. “A reabertura do Cinema da Praia foi difícil em muitos aspectos, um deles o financeiro”, afirma Lima. “Entretanto, com o apoio da comunicação social – rádio, televisão e até os jornais, que passaram a anunciar os filmes em exibição – , isso acabou por ser uma mão na roda”.

No seu caso particular, mais do que o dinheiro, o que motiva Lima é a sua paixão pelo cinema, isto é, “os risos, os gritos de susto e de admiração, e ainda as palmas”, que escuta sempre que há um filme em exibição. Mesmo assim, enquanto gestor, lamenta o facto de hoje em dia apenas os jovens e adolescentes procurarem o cinema como diversão. “As pessoas mais adultas aparecem pouco, preferem ficar em casa, vendo televisão. Mas isso não é a mesma coisa do que vir ao cinema”, garante.

Na verdade, mesmo com o novo público, já nada é como dantes, quando ir ao cinema era quase um dever ou uma obrigação. José Luís Lima recorda que na altura, a cada nova estreia, e consonante os filmes, havia até mercado negro para a compra de bilhetes. “Os filmes indianos, artes marciais e outros faziam as salas abarrotarem de gente”, recorda.

Hoje, Lima e muitos outros amantes do cinema lamentam as diversas salas espalhadas pelo país de portas fechadas e sem esperança de reabrirem. O caso mais emblemático é o Eden-Park, no Mindelo, outrora a catedral do cinema em Cabo Verde, hoje transformado num pardieiro, local de prostituição e consumo de droga.

Um outro caso emblemático, este na cidade da Praia, é o Cinema do Bairro Craveiro Lopes. Um lugar espaçoso, amplo e a céu aberto, inaugurado nos anos oitenta do século passado, criado na altura para descentralizar o cinema na capital e que serviu também de local de bailes. O seu encerramento foi sentido por muitas pessoas, principalmente pelos moradores da zona.

“Não me lembro quando o cinema fechou, só sei que foi há muitos anos. E é uma pena porque vinham pessoas de outros bairros divertir-se e relaxar depois de uma semana de trabalho”, conta um bairrense, para quem “é muito triste ver este lugar abandonado”.

CINE ASSOMADA, O SOBREVIVENTE

O cinema de Assomada, Santa Catarina, também conheceu dias difíceis. Esteve fechado várias vezes e várias vezes retomou a actividade. Numa delas, esteve fechado para obras, tendo por causa disso o cinema passado para o Quintal do Museu da Tabanca, hoje Centro Norberto Tavares. “Demoraram para abrir, mas depois compensou”, diz Maria Semedo, uma frequentadora do local.

Luís Leite é um dos responsáveis por essa proeza. E é com tristeza que na semana passada soube que a Câmara Municipal de Santa Catarina resolveu reassumir a gestão do local, passando por cima de todo o seu empenho e dedicação.

Na Praia, José Luís Lima garante que, se depender dele, a porta do velho cinema do Platô vai continuar aberta, os filmes exibidos, até que comece a ser implementado o projecto de remodelação e modernização que a Câmara Municipal da Praia tem para aquele emblemático espaço, que muitas alegrias já deu ao seu público. “Até lá espero que o cinema não feche, espero que consigamos manter as portas abertas”, conclui.


 

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