Dôs com Tito Paris
- Criado em 12-02-19
QUINZE ANOS SEM GRAVAR
A Nação: Para começar, uma provocação: ainda faz sentido continuares a cantar Dança ma mim Crioula, depois de tantos anos? Tito Paris: Claro que faz. O primeiro sucesso é como se fosse o primeiro filho. Eu posso ter 100 anos, o meu filho terá 80, mas nunca deixará de ser o meu filho. Como sabes, há vozes que comentam que o Tito Paris está estagnado na sua carreira, que grava pouco e canta quase sempre as mesmas músicas. A verdade é que nós temos sempre aquela vontade de ouvir coisas novas. Como é que reages a essas criticas? Elas são o resultado da mentalidade de Cabo Verde. A verdade é que em equipa que ganha não se mexe. Eu posso gravar pouco mas não estou estagnado. Tenho mais de onze concertos agendados pelo mundo. És mais um homem de palco que de estúdio? Exactamente. Um artista competente tem sempre lugar no palco. Essa observação não tem necessariamente só o lado maldoso. Existem muitos fãs do Tito que anseiam por um novo trabalho, por novidades... Eu percebo isso muito bem. Respeito os admiradores, que exigem mais de mim, é normal. Mas hoje em dia, onde é que já saiu tanta coisa, temos que ter alguma calma. Não estou à espera de uma oportunidade, não é nada disso. Quero fazer um trabalho que marque, que não seja apenas mais um disco. Os meus discos sempre marcaram e ainda hoje vendem bem. Quando saiu o teu último disco? Há mais de dez anos, o disco gravado ao vivo com a orquestra. De músicas originais, já não lanço um disco há cerca de 15 anos. Eu tenho consciência que é muito tempo sem gravar mas posso informar aqui aos meus amigos que brevemente vai sair um novo disco. E o que vai ter esse trabalho de diferente que justifique tanto tempo sem gravar? Será um disco à Tito Paris. Mais evoluído, naturalmente, porque todos temos que evoluir. E mais evoluído no sentido da harmonia, dos acordes, na forma de cantar. Trago uma outra sonoridade que será resultado dessa evolução. Tens feito muitas parcerias com outros cantores. Tens previstas colaborações desse género no teu novo trabalho? No meu disco terei uma parceria com uma pessoa com quem há muito tempo desejava cantar, que é com o Bana, num tema que já está gravado. Quanto aos outros, neste momento, não posso anunciar. Quando está previsto o lançamento desse novo disco? Brevemente, daqui a cinco ou seis meses, em 2012, portanto. O PANORAMA MUSICAL EM CABO VERDE Há pouco disseste que tem sido lançados para o mercado muitos discos de música cabo-verdiana. Como é que vês o panorama actual da música de Cabo Verde? Está muito melhor. O panorama musical de Cabo Verde está melhor. Mas considero que aqueles jovens que sempre se recusaram a ouvir Cesária Évora devem neste momento estar arrependidos, porque ela será uma estrela que estará sempre presente entre nós. Por vezes, sente-se alguma falta de respeito dos nossos jovens pela nossa música. E esse respeito está quase a chegar. Mas neste caso estamos a falar de cultura, de educação cultural e daquela educação que os jovens recebem em casa. Tens noção que há muitos jovens e adolescentes que ouvem e gostam da tua música? Tenho. Sei que a maioria gosta de me ouvir. E respeitando todos os jovens cabo-verdianos, devo dizer que hoje a música cabo-verdiana está melhor que nunca até porque temos mais gente nova a cantar em crioulo, a cantar música de Cabo Verde, a cantar mornas, coladeiras, batucos ou funanás. É sempre complicado um artista responder a esta pergunta, mas que valores novos destacarias neste momento no nosso panorama musical? Vários. É difícil destacar porque temos jovens muito talentosos por aí. Mas o talento musical sempre existiu em Cabo Verde. Qual é a diferença hoje que te faz ter essa visão mais optimista? Porque os jovens estão a assumir-se mais como cabo-verdianos. Dentro e fora do país e isso é muito positivo. Nunca se deve dizer "não gosto do artista tal", mas antes "não é o meu preferido mas respeito". É importante isso. Agora, para destacar algum nome acho que é muito cedo para dizer alguma coisa. Repara, temos um problema aqui em Cabo Verde que é o seguinte: quando um jovem começa a cantar, toda a gente diz "você é bom, quando é que grava?". E isso é mau, é muito mau. Eu, por exemplo, cantei durante dez anos em Portugal, nos bares em Lisboa, sem gravar. Para me poder afirmar. Mais tarde, gravei o Dança ma mim crioula e foi uma bomba! Um sucesso. Ainda hoje é. Hoje em dia não há essa paciência para esperar tanto tempo. Que conselho dás aos que agora estão a começar? Que tenham muito cuidado na decisão. Tem que ter a noção de que quem está a dizer-lhe que ele é bom, possivelmente não entende nada de música. E também ter a noção de que nada funciona fora de hora. Pensas que no teu caso, as coisas aconteceram sempre nos momentos certos? Penso que sim. Claro que dei as minhas barracas, porque sou um ser humano como qualquer outro mas aprendi com isso e cresci enquanto artista. CRÍTICAS À POLÍTICA CULTURAL Falaste à pouco de politica cultural. Como é que vês este ambiente criado com esta nova equipa do Ministério da Cultura, de um ministro que faz parte da tua classe artística? Que percepção é que tens do diálogo que tens tido com outros colegas de profissão? Sentes alguma mudança concreta no sector? Olha, se não te importas eu prefiro nem responder a isso. Acho que Cabo Verde precisa de muito mais para levar a cultura de Cabo Verde ao mundo. Repara bem que quando falamos de cultura falamos da cultura de todas as ilhas, falamos de Barlavento e Sotavento. Por exemplo, no caso da língua de cabo-verdiana é absurdo que o Governo esteja direccionado para que todos os nacionais falem apenas uma variante. Não desprezando a língua de Santiago, que é uma língua bonita de um povo bonito que eu aprecio bastante, temos que ter em consideração a maldade que estão a tentar fazer. Cabo Verde é rico pela sua diversidade. Há que respeitar isso. Não é um indivíduo que nasceu ontem que vai tentar impor uma coisa dessas. Achas que neste momento está instalado esse clima de imposição? Está instalado, sim. Neste pouco tempo que estive aqui em Cabo Verde senti isso e não acho justo. Eu sou amigo do actual Ministro e meu colega de profissão, sou amigo do Primeiro-Ministro, mas discordo de certas posições que eles gostariam de ver aplicadas. O que te parece a instalação de cursos de música na Universidade de Cabo Verde? Acho muito bem. É fantástico. Agora, espero que eles não estejam apenas ensinar o batuco e o funaná. Tem que falar de todos os grandes nomes da música de Cabo Verde. Não podem impor, dentro da sua politica cultural, aquilo que eles acham que é mais importante na música. Portanto, em relação ao futuro próximo, não estás muito optimista? Em relação à política cultural tenho que esperar mais um pouco para dizer o que penso. Agora, aqui não há salvadores da pátria. Há medidas a serem anunciadas que vem muito tarde e há ainda muito por fazer. Olha, por exemplo, ainda hoje fui tratar de um documento a uma instituição do Estado e não se podia pagar com cartão 24, tive que levar o dinheiro no bolso. Isto não se admite hoje em dia! Aqui em S. Vicente, claro, porque na Praia esse problema não existe. Tu precisas de algum papel e tens que ir para a Praia para ele ser assinado por alguém que possivelmente nunca esteve em S. Vicente. Não há autonomia. Ficamos sempre a depender do Governo Central e isso deixa-me triste. CASA DA MORNA NO MINDELO Sei que tens um projecto de abrir uma Casa da Morna aqui no Mindelo. Isso tem alguma coisa a ver com a crise que se vive hoje em Portugal, onde tens a tua Casa da Morna, que é hoje um dos restaurantes mais conceituados de Lisboa? Estás a pensar em mudar-te definitivamente para o Mindelo? A abertura da Casa da Morna no Mindelo não tem nada a ver com a crise. Eu sempre desejei investir cá. O pouco que eu tenho está tudo em Cabo Verde. Está tudo aqui. Como é que está o ambiente da comunidade artística cabo-verdiana de Lisboa, que é muito significativa, com esta crise financeira e económica da Europa? O ambiente é mau. Há uma escassez de concertos, de contratos. É complicado, é muito complicado. Com as medidas de austeridade que estão a ser tomadas pelo Governo em Portugal, a situação não é boa. Está difícil. Pode acontecer muitos artistas regressarem a Cabo Verde? Lá está, para isso é preciso fazer um grande trabalho para incentivar as pessoas desta indústria. Baixar os impostos para que, por exemplo, um músico possa receber condignamente quando passar uma noite a tocar violão. Vais montar a tua Casa da Morna num espaço que foi à falência recentemente, quando era gerido pelo Kiki Lima. Aliás, ele chegou mesmo a afirmar que S. Vicente não tem dinheiro, que está falido. Tens essa noção?
Uma conversa quinzenal entre João Branco e um artista, em tom descontraído, sobre a arte, a vida e as nossas pequenas inquietações. Desta vez, em exclusivo para A Nação, falamos com Tito Paris, um dos músicos cabo-verdianos de maior projecção internacional, com uma carreira longa e sólida, que lhe tem valido inúmeros convites para fazer parcerias com outros grandes artistas. Já há 15 anos sem gravar, o cantor revela a chegada de um novo trabalho e, como é do seu timbre, não tem papas na língua. E anuncia a abertura da Casa da Morna na cidade do Mindelo.
Eu concordo com ele. Está tudo centrado na Capital. Mas mesmo assim vou apostar, porque acredito neste projecto. Conto abrir a Casa da Morna, aqui no Mindelo, ainda este ano. Critico o que tenho que criticar sem faltar ao respeito a ninguém. E devo dar os parabéns ao Kiki Lima, porque descobriu um espaço muito bonito.

- Anúncios & Comunicados
















Director: Alexandre Semedo | Director Executivo: Fernando Ortet | Coordenador: Jose Augusto Sanches -