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Burla de sonhos na urbanização de Praia António Sousa

Os moradores e empresários que investiram na zona da urbanização da Praia António Sousa, em Santa Maria (na ilha do Sal), sentem-se burlados. Em causa está uma urbanização que dizem ter sido vendida como futura zona nobre de Santa Maria, mas que acabou por se tornar numa zona residencial sem estradas ou arruamentos, sem luz, sem água canalizada ou saneamento básico. Um sonho que virou pesadelo e que parece estar longe de ser realizado
Hoje em dia, é normal vermos campanhas de Marketing e Publicidade que vendem Cabo Verde lá fora (em Inglaterra, Itália, Portugal, entre outros) como um paraíso de sonho. O local ideal para se investir no sector da Imobiliária Turística ou para construir ou comprar a segunda residência.
Vendem-se sonhos que, em alguns casos, se podem transformar em verdadeiros pesadelos.

É este o sentimento da população residente na urbanização da zona da Praia António Sousa, mas também dos empresários que ali investiram o seu dinheiro e que vêem o seu retorno num horizonte muito longínquo.
Quando compraram os seus terrenos para construção ou imóveis já concluídos foi-lhes projectada uma urbanização numa zona tida como a nova zona nobre de Santa Maria. Mas, agora passados cerca de cinco anos, o sentimento é de burla e revolta.

 

Os moradores e empresários queixam-se que nada foi feito em relação a infra-estruturas básicas como água canalizada, rede de esgotos, iluminação pública e arruamentos.
Esta urbanização cresceu entre bancos de areia e entulho de construções que ainda hoje permanecem a céu aberto e é visível para quem visita o local.
Para Jorge Trindade, morador na zona há cinco anos, trata-se de um local com imenso potencial turístico que está ao abandono das autoridades da ilha.
“No projecto esta zona aparecia como sendo uma área nobre de Santa Maria, sobretudo residencial, com uma estrada principal larga e uma praça, com algumas áreas comerciais. Mas, ao longo dos anos, as coisas degradaram-se porque os empreendimentos foram nascendo no meio de um deserto, sem infra-estruturas de apoio”, explica o morador para quem esta zona parece não fazer parte de Santa Maria.

FALTA DE ILUMINAÇÃO PROVOCA MEDO

O mesmo sentimento é partilhado por Shirley Dobbie, moradora e comerciante na urbanização da Praia António Sousa. Para além da falta de água canalizada, rede de esgotos e estradas, Shirley está muito preocupada com a falta de iluminação e os cães vadios que não deixam as pessoas dormir.
A moradora explica que “não saio há noite de casa porque não há luz nas ruas e tenho medo. Não podemos ir passear à vila porque estamos aqui presos sem luz, porque toda a gente sabe que é perigoso”.
À desilusão com a falta de infra-estruturação junta-se o ambiente de negócios nada favorável. É que Shirley é proprietária de uma mercearia que tem vindo a “sobreviver com grandes dificuldades”.

Situação esta que se torna mais insustentável na época das chuvas quando as ruas parecem autênticos rios de lama e os clientes têm que “usar galochas para chegar à loja”.

Shirley sente-se enganada porque como atesta, “pago os meus impostos e contribuições e há anos que espero pelas condições prometidas, quando comprei a minha casa”.

A sensação de burla e engano é extensível aos empresários. O italiano Roberto Evarchi comprou, na altura, mil e 500 metros quadrados de terreno para construção, na Praia António Sousa.
Dos 150 apartamentos construídos faltam vender dez, mas, mesmo assim, continuam em “stand by” vários metros quadrados de terreno para futuras construções.

O italiano que se diz encantado com Santa Maria e todas as suas potencialidades explica que “enquanto não houver infra-estruturação nesta zona não vou avançar com as outras construções que tinha previsto para aqui. Vou ficar à espera que façam qualquer coisa que me estimule a avançar com novos empreendimentos”.

Sem construções não há emprego na ilha e Roberto quer que a autarquia tenha também essa percepção, porque o que está em jogo é muito mais do que infra-estruturas, é o desenvolvimento  conómico-social de Santa Maria.
“No ano passado cheguei a trazer várias pessoas para verem a zona e investirem. Elas gostavam muito do prédio, dos  sonhos na  urbanização da Praia António Sousa, e do local, mas depois de conhecerem melhor a situação em redor da urbanização e de terem questionado sobre o que estava previsto para aqui, ficavam com medo e desistiram do negócio”, atesta o empresário.

MAIS-VALIA

Esta urbanização que parece, de facto, “destoar” da cidade de Santa Maria, conta com mil apartamentos. No entanto, a falta de infra-estruturação tem impedido o aumento de moradores e turistas na zona.
Roberto explica que “se a zona estivesse devidamente infra-estruturada a lotação da urbanização ia estar completa e traria benefícios para os restaurantes, bares e o comércio geral de Santa Maria, uma vez que esses moradores e turistas iriam consumir na vila ao contrário dos clientes dos resorts”.

Os moradores e empresários gostariam de ver o problema resolvido a curto prazo porque já fazem contas aos prejuízos financeiros e morais, como reitera Alcindo Chaves, um cabo-verdiano que é administrador de um imóvel de uma italiana. “A minha cliente comprou um imóvel para aluguer com fins turístico e, até agora ela ainda não teve retorno do seu investimento.

Por causa da falta de infra-estruturação no local as pessoas não querem ficar alojadas lá”, destaca. Alcindo mostra-se um pouco revoltado porque, na sua opinião, está-se a deixar passar uma “péssima imagem do país” porquanto existe “uma contra-propaganda turística e, se esses pequenos investidores começarem a reclamar, isto só vai trazer prejuízo para Cabo Verde”, alerta.

A mesma opinião tem o escocês Jim Maccann, um morador que diz não compreender como uma zona tão bonita está ao abandono e afirma que se sente enganado já que lhe venderam um sonho, umparaíso, que não se veio a concretizar.
A NAÇÃO sabe que os moradores já manifestaram o seu descontentamento junto da autarquia e pediram o apoio da associação para a criação do município de Santa Maria na tentativa de acelerarem a resolução dos seus problemas. A associação, que está na posse de 32 cartas de descontentamento enviadas pelos moradores, já solicitou, inclusive, à ELECTRA a colocação de mais lâmpadas na zona. Só que a empresa diz que, de momento, não dispõe de lâmpadas para colocar no local.

AUTARQUIA RESPONDE ÀS QUEIXAS

A Câmara Municipal do Sal, na pessoa do vereador Antero Alfama, em substituição do presidente Jorge Figueiredo - em missão de serviço no exterior -, esteve reunida com os moradores, empresários e representantes da urbanização Praia António Sousa, para uma sessão de esclarecimento.
Alfama ouviu as queixas e reconheceu que a razão está do lado dos moradores. No entanto, justificou que a não infra-estruturação da zona deve-se à falta de verbas que a autarquia vem atravessando nos últimos anos, face também à crise financeira mundial. Por outro lado, acrescentou que a autarquia ainda não pôde contar com os 49 por cento do valor da venda das ZDTI (Zona de Desenvolvimento Turístico Integrado) que o Governo deveria ter entregue ao Município e e que, até agora, ainda não o fez.
Conforme realçou, quando devolvido, esse valor vai servir para apoiar a infra-estruturação da ilha e a requalificação urbana de Santa Maria, a qual contemplará a zona da Praia António Sousa com extensão da rede de água, esgotos e iluminação, assim como a redefinição dos arruamentos.
Segundo o vereador, as intervenções vão ser feitas, paulatinamente, no horizonte de um ano e meio.


 

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